Por Daniel Caramanti Júnior
Farmacêutico | CRF-SP 122729
As chamadas “canetas emagrecedoras” transformaram o tratamento da obesidade e ganharam cada vez mais espaço nas conversas sobre emagrecimento. Mas, além da perda de peso, algumas pessoas passaram a relatar mudanças em outros aspectos da saúde, incluindo o desejo sexual.
Afinal, os medicamentos à base de GLP-1 podem afetar a libido?
A resposta não é tão simples. As evidências científicas ainda são limitadas e apontam para efeitos diferentes de acordo com a pessoa, o medicamento utilizado, as condições de saúde e os fatores envolvidos na própria sexualidade.
O que são os medicamentos agonistas de GLP-1?
GLP-1 é a sigla para glucagon-like peptide-1, um hormônio naturalmente produzido pelo organismo que participa da regulação da glicose, da saciedade e da ingestão alimentar.
Os medicamentos que atuam sobre o receptor de GLP-1, como a semaglutida e a liraglutida, ajudam a aumentar a sensação de saciedade e reduzir a ingestão de alimentos. No Brasil, a Anvisa também reconhece a tirzepatida entre os medicamentos agonistas relacionados a essa classe de tratamentos.
Esses medicamentos são utilizados em situações específicas e devem ser prescritos e acompanhados por um profissional habilitado. Desde 2025, os agonistas de GLP-1 passaram a ter regras mais rigorosas de dispensação no Brasil, com retenção da receita.
GLP-1 diminui a libido?
Não é possível afirmar que os medicamentos GLP-1 diminuam a libido de forma geral.
Esse é justamente um dos pontos que ainda precisam de mais pesquisas.
Uma revisão publicada em 2026 avaliou estudos sobre agonistas de GLP-1 e função sexual em homens e mulheres e encontrou resultados heterogêneos. Foram descritos relatos de redução da libido e outras alterações sexuais, mas também situações em que a melhora do peso, da imagem corporal e da saúde metabólica esteve associada a uma melhora da vida sexual.
Além disso, muitos dos grandes estudos clínicos realizados com esses medicamentos não tiveram a função sexual como um dos principais desfechos avaliados. Por isso, ainda existem lacunas importantes no conhecimento sobre o assunto.
Por que algumas pessoas podem perceber mudanças no desejo sexual?
A libido é influenciada por diversos fatores. Por isso, uma alteração percebida durante o tratamento não significa necessariamente que o medicamento seja o único responsável.
1. Mudanças no peso e na imagem corporal
A perda de peso pode trazer mudanças na autoestima, na percepção do próprio corpo e na disposição para a atividade física.
Para algumas pessoas, essas mudanças podem favorecer a vida sexual. Uma revisão sistemática publicada em 2025 encontrou associação entre obesidade, medidas corporais e desejo sexual em parte dos estudos analisados.
2. Alterações metabólicas
Obesidade, diabetes e alterações cardiovasculares podem estar relacionadas à disfunção sexual por diferentes mecanismos, incluindo alterações hormonais, vasculares e metabólicas.
Por isso, quando o tratamento melhora parâmetros metabólicos e promove redução de peso, também pode haver repercussões positivas na função sexual em algumas pessoas.
3. Alimentação, energia e efeitos gastrointestinais
Durante o tratamento, algumas pessoas apresentam náuseas, vômitos, alterações gastrointestinais ou redução importante do apetite.
Esses efeitos podem interferir indiretamente no bem-estar, na disposição e, consequentemente, no interesse sexual.
A intensidade desses efeitos varia de acordo com o medicamento, a dose e as características individuais. A Anvisa reforça a necessidade de acompanhamento profissional durante o uso desses medicamentos.
4. Possíveis mecanismos relacionados ao sistema de recompensa
Outra hipótese estudada envolve a atuação do GLP-1 em regiões do sistema nervoso relacionadas à recompensa e à motivação.
Pesquisas experimentais levantaram a possibilidade de que a ativação desses receptores possa influenciar comportamentos relacionados à recompensa, incluindo o comportamento sexual. Entretanto, resultados observados em modelos animais não podem ser automaticamente aplicados aos seres humanos.
E nas mulheres: as canetas podem afetar a libido?
Essa é uma questão que merece atenção especial.
A função sexual feminina é influenciada por diversos fatores, como alterações hormonais, menopausa, saúde metabólica, sono, estresse, autoestima, relacionamento e uso de medicamentos.
Uma revisão publicada em 2026 destaca que os efeitos dos agonistas de GLP-1 sobre a função sexual feminina ainda são pouco caracterizados. Existem relatos e hipóteses sobre possíveis alterações, mas faltam estudos clínicos robustos que permitam estabelecer uma relação direta de causa e efeito.
Por isso, uma mulher que percebe redução do desejo durante um tratamento para emagrecimento deve conversar com seu médico e avaliar o quadro de maneira individualizada, considerando também outras possíveis causas.
E nos homens?
Nos homens, parte das pesquisas disponíveis aponta para possíveis efeitos positivos sobre a função sexual, especialmente em homens com obesidade, alterações metabólicas ou disfunção erétil.
Uma meta-análise publicada em 2026 encontrou, entre os estudos avaliados, melhora da função erétil e aumento de testosterona total e livre em homens tratados com agonistas de GLP-1. Os próprios autores destacam, porém, que ainda são necessários mais estudos para esclarecer completamente esses efeitos.
É importante diferenciar libido de função erétil. Libido está relacionada principalmente ao desejo sexual, enquanto a função erétil envolve a capacidade de obter e manter uma ereção. Uma pode mudar sem necessariamente haver alteração proporcional na outra.
O que fazer se a libido mudar durante o tratamento?
Se houver uma mudança significativa no desejo sexual após o início de um medicamento para emagrecimento, não é recomendado interromper ou alterar a dose por conta própria.
O ideal é conversar com o profissional responsável pelo tratamento para investigar possíveis fatores envolvidos.
Entre os pontos que podem ser avaliados estão:
- medicamento utilizado e dose;
- momento em que a alteração começou;
- velocidade e intensidade da perda de peso;
- alimentação e ingestão calórica;
- qualidade do sono;
- níveis de estresse;
- alterações hormonais;
- outros medicamentos em uso;
- condições metabólicas e cardiovasculares;
- aspectos emocionais e relacionais.
A avaliação individual é especialmente importante porque a sexualidade é multifatorial e uma mesma alteração pode ter diferentes causas.
A manipulação pode ajudar em casos de baixa libido?
A manipulação magistral permite desenvolver formulações individualizadas quando existe indicação e prescrição adequada, levando em consideração as necessidades de cada paciente.
Em situações envolvendo libido, porém, é importante entender primeiro o que pode estar contribuindo para a alteração. A escolha dos ativos deve ser feita de acordo com a avaliação profissional e não apenas com base em um sintoma isolado.
Na Farma Ponte Manipulação, nossa equipe pode orientar sobre as possibilidades de uma formulação personalizada e esclarecer dúvidas sobre ativos, formas farmacêuticas e uso correto.
GLP-1 e libido: o que já sabemos?
Até o momento, podemos resumir o conhecimento atual da seguinte forma:
- Os GLP-1 não têm efeito comprovadamente igual sobre a libido de todas as pessoas.
- A relação entre esses medicamentos e o desejo sexual ainda está sendo estudada.
- A perda de peso e a melhora da saúde metabólica podem contribuir para mudanças positivas na função sexual.
- Existem relatos e hipóteses de redução da libido em algumas pessoas, mas ainda não há evidência suficiente para estabelecer uma relação direta e geral.
- Os resultados parecem variar entre homens e mulheres e de acordo com as condições individuais.
- Alterações persistentes na libido devem ser avaliadas por um profissional de saúde.
- O tratamento com agonistas de GLP-1 deve seguir prescrição e acompanhamento profissional.
A relação entre GLP-1 e libido é mais complexa do que simplesmente dizer que as canetas para emagrecer aumentam ou diminuem o desejo sexual.
A perda de peso, as mudanças metabólicas, os efeitos sobre o sistema de recompensa, os fatores hormonais e até aspectos emocionais podem participar dessa relação. E, como as pesquisas ainda estão avançando, cada caso precisa ser analisado individualmente.
Percebeu alguma mudança na libido durante um tratamento para emagrecimento ou ficou com dúvidas sobre possibilidades de tratamento personalizado?
Converse com seu médico e, se quiser entender melhor as opções de formulações manipuladas, fale com a equipe da Farma Ponte Manipulação pelo WhatsApp. https://bit.ly/3Z5FO3U
Nossa equipe está pronta para orientar você e esclarecer suas dúvidas com segurança.
Referências
- Castaneda R. et al. Weight loss interventions and sexual function in midlife women: the emerging role of glucagon-like peptide-1 receptor agonists. Menopause, 2026.
- Olivares A. et al. Effects of GLP-1 analogs on metabolic alterations including male sexual function, hypogonadism and erectile dysfunction: a narrative review. Translational Andrology and Urology, 2026.
- Sexual Medicine Reviews. GLP-1 receptor agonists and sexual function in women and men: a narrative review of emerging evidence and the need for further research. 2026.
- Sexual Medicine Reviews. Beyond metabolism: sexual dysfunction and weight-loss drugs. 2026.
- The Journal of Sexual Medicine. Obesity and sexual desire: a systematic review and meta-analysis. 2025.
- Anvisa. Informações oficiais sobre Wegovy (semaglutida) e indicações aprovadas.
- Anvisa. Medicamentos agonistas GLP-1 só poderão ser vendidos com retenção da receita. 2025.
- Anvisa. Anvisa emite alerta para risco de pancreatite aguda associada ao uso indevido de canetas emagrecedoras. 2026.

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